ESTATUTOS PARA ALPINISTAS

 

 

Estatuto para Alpinistas*, segundo a organização internacional ecologista Mountain Wilderness

 

“A montanha, com os seus diversos e variados aspectos geomorfológicos, climáticos, meio ambientais, culturais e económicos, é por sua vez, o habitat tradicional de numerosos grupos humanos, um lugar para o descanso e lazer, uma área selvagem onde se podem desfrutar experiências que podem culminar em aventuras extremas, extensões inexploradas, ecossistemas, biótipos e espécies que vivem particularmente no limite da sobrevivência... Esta complexidade, construída através dos tempos, segue ainda em evolução nos dias de hoje.

A degradação que actualmente apresentam as montanhas e a desconexão absoluta do homem e da montanha, é algo que escapa totalmente ao poder e à capacidade de controlo dos assíduos visitantes da montanha e dos seus habitantes. Isto pode aplicar-se também às normas (segurança, saúde, produtos agrícolas...), às transformações materiais do terreno (retransmissores, estradas, cabos de alta tensão...) e a outros aspectos como a pressão das iniciativas comerciais e fixação de instalações urbanas.

Por outra parte é necessário afirmar que as pessoas que vão à montanha e as empresas dedicadas à organização de saídas à montanha contribuem também para esta degradação.

Parece portanto aconselhável, que os montanhistas e excursionistas comecem a adoptar uma série de normas estritas de comportamento, não só pelo bem da natureza, mas também para que resultem mais credíveis na hora de solicitar aos seus governos uma protecção mais adequada dos espaços naturais.

Este é o principal objectivo deste estatuto: construir o respeito às montanhas desde um compromisso pessoal interno e individual, de modo que cada pessoa aceitará e colocará em prática as normas necessárias para assegurar a salvaguarda das montanhas.

 

Artigo 1: Liberdade de Acesso

O livre acesso às montanhas e a liberdade de encarar os perigos que estas podem conter, é parte integrante da prática do montanhismo. No entanto, o estabelecimento de um limite por parte das autoridades estaria justificado em caso de protecção do legado natural e da herança cultural das zonas de montanha.

Os signatários deste acordo deverão:

  • Respeitar e dar a conhecer aos outros, as limitações de acesso, de espaço ou permanência numa área natural.
  • Defender o princípio de acesso gratuito às montanhas, particularmente na Europa.
  • Chamar a atenção sobre aqueles, que sob o pretexto da protecção da natureza, tendem a limitar as actividades alpinísticas ou o livre acesso às montanhas.

 

Artigo 2: Estradas e vias

As Montanhas Europeias estão repletas de estradas e vias. A sua exploração para o turismo e zonas de pastorícia, implica um crescimento sem limites e a ramificação de estradas em alta montanha.

Os signatários deste acordo deverão comprometer-se a chamar atenção sobre os promotores que levem acabo projectos que impliquem uma extensão das estradas de montanha, fazendo ver os danos que são possíveis de causar ao meio natural.

Desta forma, devem levar acabo campanhas de protecção contra a implantação desse projecto.

 

Artigo 3: Veículos a motor nas montanhas

NENHUM veiculo a motor, especialmente os particulares utilizados para fins lúdicos, devem circular pelas montanhas fora das estradas designadas para tal.

Os signatários deste acordo comprometem-se a utilizar os meios de transporte colectivos sempre que seja possível e potenciar a sua utilização.

Tal compromisso implica por um lado, a obrigação moral de não transitar por caminhos florestais dedicados a actividades de pastorícia, e especificamente a não utilizar, aviões ou helicópteros para aceder às montanhas.

Por outro lado não se facilitará, preparará, observará, nem filmará nenhuma competição ou corrida que se celebre em montanha.

 

Artigo 4: Refúgio de montanha

Já à mais de um século de invasão nas montanhas europeias, com a construção de montanhas cabanas de bivaque fixos, os signatários deste acordo pensam que a capacidade destes está mais que ultrapassada. Assim, solicitam aos responsáveis para que não apoiem nenhum projecto de criação de novos refúgios ou cabanas. Do mesmo modo, os signatários pedem para avaliar a possibilidade de desmontar o equipamento fixo que existe em média e alta montanha, como as vias ferratas, para assim se poder preservar a natureza dos possíveis efeitos da poluição causada pela aglomeração e a passagem de seres humanos.

 

Artigo 5: Marcação de Percursos

A sinalização de percursos, seja qual for a intenção do autor, podem danificar substancialmente a qualidade das experiências que são essenciais na hora de realizar um trekking e Alpinismo. Os signatários deste acordo comprometem-se a praticar e a recomendar um baixo nível de marcação de percursos.

 

Artigo 6: Respeito pelas vias históricas

As antigas vias de escalada ou itinerários de montanha, que pertencem à história das relações entre o homem moderno e as montanhas, devem ser conservadas tal e qual como estão, para que seja possível preservar o seu carácter e dificuldade. Não deve ser adicionado novo equipamento, a não ser que seja necessário recolocar de novo – com materiais tradicionais – aquelas partes mais inseguras.

 

Artigo 7: Abrir novas vias de dificuldade

A abertura de novas vias é um dos objectivos do Alpinismo. O desenvolvimento e aperfeiçoamento de novas técnicas e equipamentos, faz que isto seja um imperativo, no entanto, é necessário considerar umas normas básicas para a preservação da rocha. Os signatários consideram que se devem utilizar os sistemas de equipamento menos danosos, com os Friends, ou os pitons. Também se deve ter cuidado na hora de deixar um espaço livre considerável entre as vias, que deve ser suficientemente grande como para que a parede possa “respirar”. Na altura de abrir novas vias os responsáveis evitarão fazer qualquer dano à flora e fauna. Assim em locais em que as aves nidifiquem qualquer actividade de escalada deve ser evitada.

 

Artigo 8: Descrição de ascensões, publicações de itinerários

INFORMAÇÕES de ascensões e descrição de itinerários, particularmente as demasiado detalhadas, podem ser consideradas como uma forma indirecta de equipar o desconhecido; quer dizer; acabam com parte da aventura que supõe a descoberta de uma nova via. Os signatários do presente estatuto comprometem-se a informar de forma sucinta as características da via ou itinerário, para assim assegurar o desfrute dos outros Alpinistas.

 

Artigo 9: Competições

As competições desportivas em montanha podem contribuir seriamente para banalizar seriamente as relações entre o homem e a montanha. Os responsáveis estão de acordo em reorientar os eventos já existentes para zonas afastadas de áreas protegidas, assim como limitar a utilização de meios de assistência, controlo, publicidade de tais competições, e suprimir todas as marcas do evento uma vez que este tenha terminado.

 

Artigo 10: Poluição, lixo, ruído

Os signatários deste acordo comprometem-se a evitar qualquer acção ou iniciativa que possa ter um efeito contaminante. Adoptarão, recomendarão e ocasionalmente poderão impor um comportamento correcto e silencioso, para assim evitar molestar a fauna.

 

Artigo 11: Meios de comunicação

Os signatários do acordo apenas utilizarão os meios de comunicação modernos (telemóveis) em caso de acidente. Estes não serão utilizados para qualquer uso, que não seja por este motivo, ou de semelhante causa.”

 

*Tradução integral para Português de um excerto do artigo, Panorama – Ecologia. Anuário 2000, págs 98,99,100. da revista DESNÍVEL.

 

 

Página actualizada em
02-10-2003 17:13:23